IV

A vida
Corre
Como as páginas de um livro
Abandonado na varanda enferrujada do pensamento.
Morro e ninguém se comove
Porque ninguém se apercebe sequer
Os meus pés são a neve em que caminho.
O meu corpo ergue-se em caules de marfim.
Morro para mais ninguém para além de mim.
As unhas negras cortadas curtas
Cravar-se-ão no branco que esvoaça
Um grito alto e mudo despedaçará os ouvidos dos surdos.
Loiça branca e cara parte-se no chão de pedra
E a raiva que me ampara mais do que o olhar encerra.
Movo-me cega na prisão dos meus sentidos
A saliva quente que se mistura com o gume envenenado de metal.
Morro porque vivi
Sem nunca ter vivido.
O reflexo embaciado na janela de Inverno
Parto-o porque quero.
Parto porque quero.
O horizonte faz amor com o falo dourado.
E eu sorriu no meu vestido encarnado.

III

Sou a faixa vermelha no braço armado.
Sou o branco no tecido hasteado.
Sou o dourado no amor celebrado.
Sou o azul no gigante silenciado. 
Sou o mundo.

II

O ser humano é um bicho de enganos. 
Engana aos outros 
E atraiçoa-se ao enganar-se sem saber. 
Magoa reflectindo esses enganos. 

O ser humano é um bicho confuso
Quere-se e odeia-se 
E sem intervalo de tempo
E sem mudança qualquer.

O ser humano é um bicho consciente 
E simultaneamente de todo ignorante
Constantemente frustrado pelas suas tentativas 
De compreender o inalcançável
Mas ao mesmo tempo suficientemente capaz
Para almejar atingir algum tipo de clarividência.

O ser humano é um bicho triste. 
Foi-lhe concedido o dom do pensamento
Mas não a compreensão e clareza de espírito necessários
Para atingir uma única verdade Universal. 

O ser humano é um bicho só.

I

Rejeito todos os eus que não conheço
E dou-me ao mundo como sou
Vazia.
Poderão vir tormentos, tiranos, tempestades
Permaneço firme
Pois permaneço oca. 
A casca que deveria proteger a substância vital 
Mantém-se erguida num pedestal de vidro
Com superfície de verniz. 
Protege agora a ilusão que dou de mim. 

Curioso. 
Não flutuo. 
Esvoaço pelas ruas sem flutuar. 
Parece que as leis da física não se aplicam a coisas que a este mundo não pertencem. 
Se bem que não sei onde podem pertencer 
Já que não há lugar para o nada. 

O nada está em tudo. 

Se picar um dedo inanimado ele sangra. 
Mas como se o sangue é o sumo da vida?
Não é preciso existir para ser se visível e estar-se vivo. 

Eu sangro. 
Mas não existo.

De reis e de ratos

Que farsa é essa de que me falas com falsa faceta? 
Que trapaça devassa de devaneios divinos e desdenhosos que dilaceram docemente esse drama dubiamente desenhado?
Que maravilhosa mistura de maquiavélicas manipulações e mundanas manifestações de monumental magnificência! 
Será o sopro da sôfrega saga que segue a sábia serpente insana na sonsa doença de ser?
Penso penosamente que a punição dos perdedores será pior por possuírem tão persistente pedra no peito. Ora a palavra mal impregnada desses papagaios palermas profana e parte pelo menos parcialmente a apaixonada pátria Portuguesa por mais poderosa que queira parecer.
Está estagnada esta existência que exerce eximiamente a elegante excelência de esquecer o estímulo e eleger o estável. 
Considero como cume da catástrofe o cuidadoso conluio de cadáveres em comício que escondem candidamente a carnal condição e o cómico carácter como que cravando caras crenças na carne clara. 
Nesta noite em que uma nuvem de normas natas em nós anula a notável nulidade da nação, nasce a noção negligenciada da natureza.
Retiro-me rapidamente reformada de irreais revoluções e raiva rudimentar e rio-me do ridículo que rege as ruas deste rodeio de reis e de ratos. Realmente! Que rara é a razão num reino rotulado racional! 

Esmorece

Esmorece-se o retrato bronzeado
E nele o rosto enrubescido de meu sangue
E nele o vislumbre de um riso encantado
E nele o devaneio que o receio extingue.

Esmorece-se o cheiro adocicado
E nele o perfume que trazias na barba cerrada
E nele o olfacto de um abraço afectado
E nele a esperança obliterada.

Esmorece-se a voz de um resmungo aborrecido
E nele as palavras de um livro de capa floreada
E nele as baladas que esvoaçavam à cabeceira de um olhar enternecido
E nele os "amo-te" e os "estou aqui" que não queriam afinal dizer nada.

Esmorece-se o toque acalentado
E nele a mão grande que a minha agarrava
E nele o medo do mundo colmatado
E nele a alegria que o isolamento faz agora escrava.

Esmorece-se por fim a presença
E nela a ténue lembrança
E nela o que de humana consegui manter em mim
ainda que fosses enfim
Pai
Esmorece-se rapidamente a criança que um dia acreditou em ti.

A.S.

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Quimeras da trivial divindade de viver

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.

São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?

- Fernando Pessoa