IV
III
II
I
De reis e de ratos
Esmorece
Esmorece-se o retrato bronzeado
E nele o rosto enrubescido de meu sangue
E nele o vislumbre de um riso encantado
E nele o devaneio que o receio extingue.
Esmorece-se o cheiro adocicado
E nele o perfume que trazias na barba cerrada
E nele o olfacto de um abraço afectado
E nele a esperança obliterada.
Esmorece-se a voz de um resmungo aborrecido
E nele as palavras de um livro de capa floreada
E nele as baladas que esvoaçavam à cabeceira de um olhar enternecido
E nele os "amo-te" e os "estou aqui" que não queriam afinal dizer nada.
Esmorece-se o toque acalentado
E nele a mão grande que a minha agarrava
E nele o medo do mundo colmatado
E nele a alegria que o isolamento faz agora escrava.
Esmorece-se por fim a presença
E nela a ténue lembrança
E nela o que de humana consegui manter em mim
ainda que fosses enfim
Pai
Esmorece-se rapidamente a criança que um dia acreditou em ti.
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